Não dá para crescer sozinho

20/04/2009

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Para aumentar a fabricação de produtos reciclados, muitas empresas estão sendo obrigadas a criar programas que estimulem também o crescimento de seus fornecedores

Por Guilherme Fogaça


Guia Exame de Sustentabilidade 2007


Em 2001, a fabricante de papel e celulose Suzano lançou o Reciclato, o primeiro papel brasileiro 100% reciclado produzido em escala industrial. Apesar do ceticismo do mercado, o produto transformou-se num dos maiores sucessos da empresa. Há seis anos, a Suzano fabricava 300 toneladas do Reciclato, que eram comercializadas apenas para a indústria gráfica e o mercado corporativo. Neste ano serão produzidas 39.000 toneladas, vendidas também para o consumidor final. Esse aumento colossal obrigou a empresa a buscar novos fornecedores de matéria-prima.


Para produzir o Reciclato em seu ano de criação, a empresa consumia 20 toneladas de aparas de papel usado por mês, proveniente de três cooperativas de catadores de papel. Hoje, são necessárias 700 toneladas do insumo todos os meses, fornecido por 85 cooperativas. "Não dava mais para continuar crescendo sem ter uma rede de fornecedores estruturada", afirma André Dorf, diretor da unidade papel da Suzano. "Estávamos limitados pelo acesso à matéria-prima."


Para vencer esse desafio, a companhia lançou neste ano um projeto de profissionalização das cooperativas, em parceria com a Fundação Avina, o Instituto Ecofuturo e o banco Real. Batizado de Investimento Reciclável, o programa formou um fundo de 360.000 reais para financiar a aquisição de equipamentos e o capital de giro das cooperativas. A iniciativa, inédita no setor, não tem nenhum caráter assistencialista. Os recursos emprestados às cooperativas devem ser devolvidos em até 24 meses (os valores são atualizados apenas pela correção monetária). Além do acesso ao financiamento - algo até então quase impensável para algumas dessas cooperativas de catadores -, o programa oferece cursos de capacitação. A consultoria Eco Consulting foi contratada para realizar treinamentos sobre gestão operacional e administrativa. O objetivo é que, com dinheiro e capacidade gerencial, as cooperativas consigam aumentar a produtividade e a renda - e a Suzano, ao mesmo tempo, tenha garantido um volume crescente de papel para reciclagem.


O projeto piloto começou em agosto passado e envolveu cinco cooperativas de São Paulo, que já receberam um total de 141.000 reais. Uma delas é a Cooper Viva Bem, localizada na Vila Leopoldina, na zona oeste da capital paulista. Com um crédito de 39.000 reais, a cooperativa comprou duas novas prensas para comprimir o material coletado. No primeiro mês com os novos equipamentos, a produção aumentou quase 65%, passando de 78 para 121 toneladas. A lógica empresarial também já foi incorporada à forma de remuneração dos cooperados.

O conceito vigente agora é a meritocracia: ganha mais quem produzir mais. "Eles têm metas mensais para alcançar", afirma Maria Tereza Montenegro, presidente da Cooper Viva Bem. "Quem não alcança é chamado para conversar para que, juntos, identifiquemos quais são as dificuldades."


Ao final de cada mês, a diretoria apresenta aos cooperados os gráficos de produtividade da equipe, que depois ficam fixados na parede do refeitório. Os cooperados sentem a diferença no próprio bolso. Segundo dados da cooperativa, em 2001 a renda média dos catadores era de 150 reais por mês. Hoje é de 700 reais - e os mais eficientes chegam a ganhar 1.500 reais mensais. Os empréstimos serviram também para aumentar o capital de giro das cooperativas. Com os 40.000 reais recebidos, a CooperAção, localizada na zona oeste de São Paulo, passou a pagar os grupos de catadores no momento em que eles entregam o material - e não quando o cliente final paga pelo papel, como é de praxe. "Geralmente leva uns 15 dias para as empresas realizarem o pagamento para a cooperativa e algumas pessoas simplesmente não podem esperar", afirma Neilton César Polido, secretário da CooperAção.


ESPÍRITO EMPREENDEDOR
O choque de gestão do programa acabou despertando o espírito empreendedor dos cooperados. Além de aumentar a produtividade, eles começaram a pensar na evolução do próprio negócio. "Não é possível que daqui a dez anos a gente continue apenas separando o material", diz Márcia Abadia Martins, presidente da Cooperativa Granja Julieta, na zona sul de São Paulo, que já aumentou de 37 para 53 o número de cooperados e planeja implantar um segundo turno de produção. "Se eu faço a coleta, por que não posso industrializar o material?" No médio prazo, o plano da cooperativa é fabricar embalagens com o processamento do material coletado. Os resultados iniciais do programa são animadores. A produção das cinco cooperativas juntas aumentou quase 40% - e parte do excedente foi comprada pela Suzano.


A busca por mais matéria-prima reciclável também é um desafio para a Klabin, fabricante de papéis e cartões para embalagens. Uma das especialidades da empresa é reciclar as embalagens longa vida utilizadas para armazenar leite e sucos. Em 2005, a empresa implantou em sua unidade de Piracicaba, no interior paulista, uma tecnologia que permite separar os três elementos das embalagens longa vida: papel, plástico e alumínio. O sistema, desenvolvido em parceria com a Tetra Pak, a consultoria TSL Engenharia Ambiental e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), processa diariamente cerca de 40 toneladas de embalagens. Sua capacidade, porém, é de 60 toneladas por dia. "O que falta para aumentar o processamento é matéria-prima", afirma Fernando von Zuben, diretor de meio ambiente da Tetra Pak.

A busca por uma cadeia produtiva sustentável também está se intensificando no setor de embalagens PET. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda a liberação de um sistema de engarrafamento chamado bottle-to-bottle, que utiliza como matéria-prima o PET reciclado. Trata-se de uma tecnologia já aprovada em diversos países, inclusive nos Estados Unidos. A subsidiária brasileira da Coca-Cola é uma das empresas interessadas em adotar o sistema. "Hoje, a indústria têxtil é a principal consumidora dessa matéria-prima. Mas, com a aprovação da Anvisa, nós também passaremos a utilizá-la", afirma José Mauro de Moraes, diretor de meio ambiente da Coca-Cola. Segundo ele, a adoção desse processo poderia aumentar o índice brasileiro de reciclagem de PET dos atuais 47% para 54% no período de um ano. Atualmente, a Coca-Cola apóia 35 cooperativas de catadores em 23 estados brasileiros - e a meta é cobrir todos os estados até o início de 2008.


POLÍTICA DE RESÍDUOS
Apesar dos avanços recentes, a parceria entre empresas e cooperativas está hoje ameaçada por questões regulatórias. O Ministério do Meio Ambiente está estruturando uma política de resíduos sólidos que pode obrigar as empresas a cuidar diretamente de seus resíduos. "Se as corporações precisarem montar os próprios sistemas de tratamento de material usado, elas vão acabar competindo com as cooperativas em vez de ajudá-las a crescer", afirma André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), ONG mantida por vários fabricantes de bens de consumo. O modelo que o ministério pode adotar é semelhante ao da Alemanha, onde os fabricantes são responsáveis por todo o ciclo de vida de seus produtos - desde a fabricação até sua eliminação. No setor de embalagens, por exemplo, a norma estabeleceu a obrigatoriedade de fabricantes e distribuidores recolherem e reciclarem os materiais. Por isso, as empresas do setor criaram a Duales System Deutschland GmbH (DSD), entidade sem fins lucrativos que organiza a coleta e faz a triagem e a reciclagem de todo o material. Para fazer parte da DSD, as associadas precisam pagar uma taxa de filiação, além de tarifas que variam conforme o volume de suas embalagens. O custo de montar essa estrutura obviamente acaba sendo repassado para os consumidores. "Se essas taxas forem criadas no Brasil, toda a cadeia de reciclagem seria desmontada", afirma Von Zuben.


COM CARA DE EMPRESA
A participação de grandes companhias profissionalizou a maneira como funcionam as cooperativas de catadores
Os cooperados deixaram de receber por hora trabalhada. Agora, o salário varia de acordo com a produtividade de cada um.

Para otimizar o uso dos equipamentos, as cooperativas reestruturaram o trabalho em até três turnos.
Reuniões mensais com a apresentação dos balanços de produtividade e de faturamento dão um caráter de transparência ao negócio.
Com o capital de giro, os cooperados eliminaram os atravessadores e passaram a vender o material para as empresas e por um preço maior


A PIRATARIA DAS GARRAFAS
O comércio paralelo de embalagens impede que a reciclagem de vidro aumente no Brasil
Produção de garrafas: reciclagem não passa de 45% das embalagens
Organizar cooperativas de catadores não é o único desafio das empresas de vidro que usam material reciclado. O setor vive hoje às voltas com uma barreira muito mais difícil de ser eliminada: a reutilização ilegal das garrafas. Nesse comércio paralelo de embalagens, indústrias de bebida sem marca compram garrafas de fabricantes renomados para reutilizá-las com o seu produto. A prática, além de ilegal e perigosa, é um dos grandes freios da reciclagem de embalagens de vidro no Brasil. Segundo dados da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), nos últimos quatro anos o índice de reciclagem ficou estacionado em 45% das embalagens.


A Owens-Illinois do Brasil, um dos maiores fabricantes nacionais, é uma das empresas que lutam contra esse problema. Atualmente, a companhia utiliza 100.000 toneladas de cacos de vidro por ano para a fabricação de embalagens - equivalentes à metade de toda a matéria-prima utilizada para sua produção anual. No entanto, se houvesse material suficiente, 100% da fabricação poderia ser feita com vidro reciclado. Na Alemanha, por exemplo, a reciclagem de vidro chega a 91%. "O problema da falsificação é tipicamente brasileiro", afirma Leandro Pignataro, gerente-geral de marketing da Owens-Illinois, que opera em mais de 30 países.


Além do impacto ambiental, a substituição da areia por cacos de vidro como matéria-prima reduz os custos de produção. Uma das maiores economias é com energia, uma vez que o processo à base de reciclagem exige menos calor nos fornos que o sistema tradicional. Em média, a economia é de 120 reais por tonelada de vidro produzido - praticamente o mesmo preço que a empresa paga para os fornecedores dos cacos. Para incentivar a reciclagem, a companhia faz um trabalho de conscientização da população, executado com a Abividro. A idéia é orientar os consumidores para que eles não revendam as garrafas e não as coloquem no lixo inteiras. "A reciclagem é feita com os cacos. Por isso não é preciso deixar a garrafa inteira para conseguir reciclar", diz Pignataro.


Por Guilherme Fogaça
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