Cerrado, o avanço da devastação.

23/04/2009

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Área desmatada no bioma deve aumentar de cerca de 800 mil km² para 960 mil Km² em 4 décadas.

O desmatamento no cerrado do País terá aumentado 14% até 2050, o que deve reduzir a área preservada para cerca de 1 milhão de Km². Os dados são de um estudo da Universidade Federal de Goiás (UFG) que prevê redução de 40 mil Km² do bioma por década, se for mantido o ritmo atual de avanço da fronteira agrícola e pecuária.


As áreas já devastadas deverão subir dos 800 mil Km² de 2002 para 960 mil Km² daqui a quatro décadas. Esse aumento representa a metade do Estado de Goiás ou dez vezes a área do Distrito Federal. Até 2020, cerca de 60 mil Km² poderão ser incorporados ao sistema agrícola da região. Os cálculos, feitos pelo professor da UFG Manuel Eduardo Ferreira, com base em imagens de satélites, sinalizam para uma expansão da fronteira agrícola no cerrado em direção às regiões Norte e Nordeste do País, sobretudo Bahia, Piauí e Maranhão, onde cresce o plantio de soja.


Isso trará conseqüências socioeconômicas e ambientais, como maior comprometimento das bacias hidrográficas de todo o bioma, com prejuízos diretos para os recursos hídricos, solo e biodiversidade da região. O cerrado se espalha por dez Estados e o Distrito Federal. É o segundo maior bioma dos seis existentes no País, perdendo para a Amazônia. É também considerado uma das savanas mais ricas do mundo por causa do contato biológico com biomas vizinhos. Em áreas de cerrado estão nascentes de importantes rios e bacia Amazônica, do Prata e do São Francisco.


Ferreira atua no Laboratório de Processamento de Imagem e Geoprocessamento (Lapig) do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, principal organismo a estudar o cerrado no País. O Lapig é credenciado pelo Ministério do Meio Ambiente e trabalha com imagens de satélites, o que o MMA não faz – o controle por satélite é somente para a Amazônia. O estudo foi realizado em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais – Departamento de Cartografia, Centro de Sensoriamento Remoto.

Mudança na ocupação
Segundo o professor, as terras com cobertura vegetal mais densa, de fisionomia florestal – cerradão e mata seca -, mesmo em menor quantidade, foram originalmente (e continuam sendo) as mais procuradas por agricultores, por oferecerem um maior suporte nutricional aos plantios.

“Entretanto, nas últimas décadas a fertilidade vem deixando de ser um fator limitante à ocupação do cerrado por causa da incorporação de novas técnicas de plantio e adubação”, escreve Ferreira. Nos atuais alertas de desmatamento (período 2003 a 2007) há uma concentração em áreas de “baixa” ou “muito baixa” fertilidade (56% e 42%, respectivamente), indicando uma menor dependência em relação às áreas consideradas de terra boa.


“A ocupação do cerrado parece estar vinculada também às condições climáticas da região, demonstrando a relevância da média anual de precipitação como uma variável importante neste processo”, diz o professor. Como hoje foram desenvolvidas modernas técnicas de irrigação, é possível que a ocupação não se dê mais como no inicio, em que se buscava a precipitação pluviométrica. Provavelmente, com o avanço estágio de conversão do bioma, somado ao uso de técnicas apropriadas de irrigação, essa dependência à precipitação seja cada vez menor, em comparação com o inicio da década de 1970 – momento da expansão inicial da fronteira agrícola no Centro-Oeste brasileiro.


Entre as variáveis causadas pelo homem com a transformação da vegetação original, a infraestrutura rodoviária oferece uma grande atratividade para o desflorestamento, conclui o estudo. “Sobretudo nas áreas de extração madeireira e produção de carvão vegetal (casos da Amazônia e do cerrado) ou para a agricultura de larga escala (caso do cerrado). Tal fato se deve, naturalmente, pela necessidade de escoamento da produção, influenciando o surgimento e desenvolvimento de outras atividades, como urbanização e rotas de comércio e indústrias”. Os estudos apontam também para noticias boas para os ambientalistas.


Ao contrário da segunda metade do século 20 (principalmente nas décadas de 1970 e 1980), ainda com uma elevada taxa anual de conservação do cerrado (1%), espera-se para as próximas décadas do século 21 uma taxa de conversão cada vez menor, em torno de 0,4% ao ano. Isso se deve a fatores como redução gradativa das áreas de interesse para a agricultura e pastagem, oscilação da economia, intensificação do uso da terra em áreas já convertidas, aumento da fiscalização ambiental e criação de áreas de conservação.
Matéria de João Domingos

Bioma perdeu 40% da cobertura

Enquanto o desmatamento da Amazônia é motivo de clamor internacional, a devastação do cerrado passa quase que despercebida, até mesmo no Brasil. O segundo maior bioma do País já perdeu 40% de sua cobertura original. Se forem contadas as áreas de pastagens manejadas, que utilizam o capim nativo, em vez de plantado, o índice de ocupação chega a 56%.


Só os 40% já significam 800 mil Km² de devastação – uma área equivalente aos territórios de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. São 100 mil Km² a mais do que tudo que já foi desmatado na Amazônia. Ainda assim, as savanas do cerrado estão longe de receber a atenção, a proteção ou os recursos destinados às florestas tropicais. O Código Florestal exige que 80% de uma propriedade seja preservada com mata nativa na Amazônia. No cerrado, essa exigência é de, no máximo, 35%.


Parte da indiferença, segundo ambientalistas, nasce de uma percepção equivocada, de que o cerrado é um bioma “pobre”. Pesquisas recentes, na verdade, mostram tratar-se de uma savana riquíssima em espécies de fauna e flora. Apesar de sua grande extensão, o bioma está na lista dos “hotspots” – as áreas de grande biodiversidade mais ameaçadas do planeta.

Fonte: Jornal “O Estado de São Paulo”
Por: Herton Escobar

 
 
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